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Uma revisão sistemática publicada em 2023 no BMJ Open Sport & Exercise Medicine avaliou 199 estudos, totalizando 24.158 participantes, dos quais 109 investigaram o balé. O objetivo foi analisar os métodos empregados no monitoramento da carga de treinamento na dança.
Os resultados mostraram que 180 dos 199 estudos (cerca de 90%) utilizam apenas a duração das atividades como indicador. A média semanal reportada foi de 9,5 horas de treino, porém com grande variação entre as populações estudadas, evidenciando que o tempo isolado não captura a intensidade nem permite estabelecer limites universais de treinamento.
Essas constatações são exemplificadas pela trajetória de Elisa Neves, bailarina de 14 anos, ex‑aluna do Bolshoi, que recentemente mudou do Brasil para Portugal para continuar sua formação no Conservatório Annarella Sanchez. A mudança representa não apenas um novo estágio artístico, mas também um reordenamento familiar, já que sua mãe, a arquiteta Elaine Neves, abandonou a carreira para acompanhá‑la.
"Quem assiste a uma apresentação nem sempre imagina tudo o que existe por trás daqueles minutos no palco. A formação exige disciplina, repetição, dedicação e disposição para aprender todos os dias", afirma Elisa. Elaine acrescenta que, embora apoie a evolução profissional da filha, acompanha rigorosamente sua saúde, lembrando que "existe uma pessoa por trás da bailarina, com sentimentos, limites e necessidades que também merecem atenção".
A psicóloga Luciana Rique, mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela UNESP, alerta que a alta performance não deve suprimir o bem‑estar mental. "Quando falamos de alta performance, precisamos lembrar que o desenvolvimento humano não se resume ao resultado alcançado. Jovens submetidos a rotinas exigentes precisam ter espaço para reconhecer e expressar emoções, lidar com frustrações e pedir ajuda quando necessário", comenta.
Os autores da revisão recomendam o desenvolvimento de métodos de monitoramento mais consistentes, que considerem não apenas a duração, mas também a intensidade, repetições, exigências coreográficas e períodos de recuperação. Essa abordagem multidimensional seria especialmente relevante na adolescência, fase em que mudanças físicas, emocionais e sociais ocorrem simultaneamente ao aperfeiçoamento técnico, contribuindo para a proteção da saúde integral dos bailarinos.
A discussão sobre alta performance também envolve a maneira como cada pessoa lida com expectativas, correções, frustrações e comparações. Quando a busca por aperfeiçoamento passa a ser acompanhada de medo persistente de errar, sofrimento intenso ou dificuldade de descansar, é importante olhar para o contexto e avaliar se a rotina está comprometendo o bem-estar.
A psicóloga clínica Luciana Rique, pesquisadora e profissional com mais de uma década de experiência, é mestre em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Bauru. É Professional Member da Association for Contextual Behavioral Science (ACBS), sócia plena da Associação Brasileira de Análise do Comportamento (ACBr) e membro da Association for Behavior Analysis International (ABAI).
Para ela, a preparação para o alto rendimento precisa considerar o desenvolvimento humano de maneira mais ampla, sem limitar a avaliação de uma pessoa ao resultado que ela consegue entregar.
"Quando falamos de alta performance, precisamos lembrar que o desenvolvimento humano não se resume ao resultado alcançado. Jovens submetidos a rotinas exigentes precisam ter espaço para reconhecer e expressar emoções, lidar com frustrações e pedir ajuda quando necessário. Cuidar da saúde mental não significa diminuir a disciplina ou a ambição, mas favorecer condições para que a pessoa desenvolva seus recursos psicológicos sem que sua identidade fique restrita ao desempenho", enfatiza Luciana Rique.
A especialista reforça que a atenção à saúde mental não deve começar apenas quando o sofrimento se torna intenso. "Relações de confiança, escuta, expectativas realistas e acesso a apoio profissional, quando necessário, podem integrar uma abordagem de cuidado. Isso não significa transformar o cansaço após um treino ou a ansiedade antes de uma apresentação em sinais automáticos de adoecimento. É necessário considerar a frequência, a intensidade, a duração e o impacto dessas experiências na vida de cada pessoa".
Na adolescência, essa atenção ganha importância adicional. A formação artística acontece em uma fase de construção da identidade, desenvolvimento da autonomia e ampliação das relações sociais. Segundo a pesquisadora, o reconhecimento do talento e das conquistas pode ser positivo, mas não substitui a necessidade de pertencimento, segurança emocional e valorização para além da performance.
"A excelência artística depende de dedicação, preparação e persistência. Mas também exige que o esforço seja compreendido, que a recuperação seja respeitada e que o jovem encontre condições para expressar suas necessidades sem comprometer sua trajetória", comenta a mãe de Elisa Neves.
Para Elisa, a jovem bailarina em busca da carreira promissora, "a leveza que encanta a plateia é resultado de um trabalho rigoroso. Reconhecer o que existe por trás dela significa valorizar não apenas o artista que se apresenta, mas o ser humano por trás das sapatilhas".
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