Entre as alternativas para descarbonizar o transporte pesado no Brasil, o biometano apresenta uma vantagem importante: pode aproveitar parte da infraestrutura já desenvolvida para o gás natural, incluindo gasodutos e pontos de abastecimento. Essa estrutura permite acelerar sua adoção sem partir do zero, embora sua expansão em maior escala ainda dependa do avanço da infraestrutura de distribuição e abastecimento, especialmente nos principais corredores logísticos e em regiões do interior do país. 

Levantamento da Associação Brasileira das Distribuidoras de Gás Canalizado (Abegás) mostra que o país já conta com 1.752 postos de GNV, cerca de 2,6 milhões de veículos convertidos e 706 empresas credenciadas para fazer conversões, um mercado que gerou R$ 8,7 bilhões em economia para os usuários apenas em 2022. Essa rede nasceu voltada aos veículos leves, mas começa a migrar para o transporte pesado: a entidade projeta que 45 novos postos preparados para abastecer caminhões devem entrar em operação até o fim de 2025, acompanhando o crescimento da frota pesada movida a gás natural e biometano. 

É nesse contexto que o transporte de cargas aparece entre as aplicações mais promissoras para o biometano. O estudo internacional From Waste to Wheels: Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport, encomendado pelo Instituto MBCBrasil e assinado por pesquisadores da USP, da Unifei, do IAC e do Instituto Mauá de Tecnologia, aponta o combustível como uma solução madura e com potencial de competitividade para a descarbonização do transporte rodoviário, especialmente nos segmentos de carga pesada e longa distância. 

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A urgência em torno do setor tem base em números robustos. Levantamento da Universidade Federal de Minas Gerais sobre o transporte de cargas no país aponta que, já em 2019, os transportes respondiam por 38% das emissões totais de gases de efeito estufa ligadas ao uso de energia no Brasil, cerca de 196,5 milhões de toneladas de CO₂, e os caminhões concentravam sozinhos 40% desse volume. Poucos setores da economia reúnem, ao mesmo tempo, tamanho peso nas emissões nacionais e uma alternativa de descarbonização capaz de aproveitar parte da infraestrutura de gás já existente. 

O ganho ambiental do biometano em relação ao diesel também é relevante. Segundo o estudo From Waste to Wheels, a substituição do diesel por biometano no transporte pesado pode reduzir as emissões de CO₂ equivalente, considerando a abordagem well-to-wheel, entre 45% e 75%. Os resultados variam conforme a matéria-prima, a tecnologia e a aplicação considerada. 

O ambiente regulatório recente reforça essa janela. Para José Eduardo Luzzi, presidente do conselho do Instituto MBCBrasil, o estudo mostra que o biometano já reúne condições de aplicação em diferentes mercados e pode ajudar a acelerar tanto investimentos quanto políticas públicas para o setor. A leitura de Luzzi encontra respaldo no arcabouço legal aprovado nos últimos anos. O Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano criou o Certificado de Garantia de Origem de Biometano (CGOB), já regulamentado pela ANP, enquanto o CNPE fixou uma meta inicial de redução de emissões para o mercado de gás natural via uso de biometano, uma referência de demanda que chega justamente no momento em que os primeiros projetos de produção em escala saem do papel. 

O movimento também aparece na ponta municipal. Em São Paulo, o programa BioSP, instituído pela Prefeitura de São Paulo em setembro de 2025, estabeleceu regras para incorporar progressivamente o biometano às frotas de transporte público e de coleta de resíduos da cidade, com meta de substituir mais de 600 caminhões a diesel até 2027. Hoje, 125 caminhões de coleta já rodam com biometano produzido a partir de aterro sanitário, e a prefeitura planeja ampliar a compra do combustível junto a fornecedores privados, dentro do Plano de Mudança do Clima da cidade. 

O quadro que emerge é o de um combustível que já conta com tecnologia madura e pode aproveitar parte da infraestrutura existente para começar a substituir o diesel em aplicações do transporte pesado. Para ampliar essa utilização, porém, o estudo aponta a necessidade de avançar simultaneamente na produção de biometano, na infraestrutura de abastecimento e distribuição, no acesso a investimentos e em condições regulatórias que favoreçam a expansão do mercado. A oportunidade existe, mas ganhar escala dependerá da coordenação entre produtores, distribuidores, fabricantes, operadores de frota e poder público.



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