Na quarta‑feira, 6 de maio de 2026, a Câmara Municipal de Salvador não aprovou apenas mais um pacote de leis. Aprovou um conjunto de projetos que, se sancionados, pode mudar o rosto da política de saúde, assistência e proteção social em bairros como Bonfim, Campinas de Pirajá, Lobato e Marechal Rondon.

Com autoria da vereadora Isabela Sousa (Cidadania), essas propostas revelam um mandato que nasce da periferia, conversa com a periferia e volta para a periferia em forma de norma, recurso e atenção direta.

Plano de Parto: o quebra‑cabeça de uma maternidade periférica
Entre os destaques está o projeto que determina a inclusão do Plano de Parto no prontuário das gestantes atendidas na rede pública de Salvador. 

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Em termos práticos, isso significa que, ao chegar na unidade de saúde, a mulher já terá anotado ali, desde o pré‑natal, como quer viver o nascimento: se com presença de acompanhante, se prefere parto normal, quais intervenções são desejadas ou rejeitadas.

Para moradoras de bairros periféricos, onde muitas só entram em contato com o sistema de saúde em situações de emergência, essa mudança é mais do que burocracia: é reconhecimento de agência.

O Plano de Parto cria um “protocolo invisível” de respeito, justamente onde a violência obstétrica costuma ser mais silenciosa – nas falas subestimadas, nas demandas ignoradas, na desqualificação do corpo de uma mulher negra, pobre ou moradora de favela.

O Programa de Enfrentamento à Violência Obstétrica
Ainda dentro da saúde da mulher, Isabela articulou a proposta de criação de um Programa Municipal de Enfrentamento à Violência Obstétrica, que vai além da punição pontual de condutas abusivas.

O projeto prevê capacitação de profissionais, protocolos de acolhimento, dados sistematizados por unidade e canais de denúncia dentro da própria rede pública.

Em contextos como Bonfim, Cajazeiras e Campinas de Pirajá, onde a confiança nas instituições é frágil por décadas de desatendimento, a iniciativa tenta costurar um novo pacto: a de que a gestante não é apenas um “caso clínico”, mas uma cidadã com direito à voz, ao corpo e à memória.

Café Solidário e o direito ao prato antes da lei
Outro projeto que ganhou força na Câmara é o Programa Café Solidário, que prevê a distribuição gratuita de café da manhã em pontos estratégicos da cidade para pessoas em situação de vulnerabilidade e população em situação de rua.

A ideia pode parecer simples – um prato, um copo de café –, mas dialoga diretamente com o que organizações de periferia chamam de “política de sobrevivência”: o que é preciso para que alguém não desmaie na fila, não desista de estudar, não abandone o tratamento.

Ao mesmo tempo em que busca combater a fome imediata, o projeto lança luz para uma questão mais incômoda: a de que muitas pessoas só aparecem no radar público quando já estão em situação de rua ou em processo de deterioração extrema.

O Café Solidário, se bem implementado, pode se tornar um ponto de entrada para outros serviços: saúde, assistência psicológica, encaminhamentos para abrigos e programas de renda.

Quebrando o burnout e a lógica do jogo
Na área social, o pacote inclui propostas de prevenção e combate à síndrome de burnout entre servidores municipais e ao problema da ludopatia ligada às apostas online. 

Essas duas pontas são, em essência, heranças de uma rotina de trabalho que exige mais do que oferece: salários defasados, jornadas intensas e pouco apoio psicológico.

No caso das apostas, o projeto de Isabela busca criar um programa com atendimento psicológico, orientação financeira e apoio institucional para quem já acumula dívidas e perde o controle.

Em bairros periféricos, onde o dinheiro é mais curto e as promessas de “enriquecimento rápido” se espalham por WhatsApp e redes sociais, essa legislação pode ser uma rede de proteção para famílias inteiras que já veem o jogo como única saída.

Do reconhecimento de bairro ao protagonismo comunitário
A política de periferia de Isabela não se resume ao que foi aprovado em 2026. Em 2025, por exemplo, a Câmara reconheceu oficialmente Boa Vista do Lobato como o 172º bairro de Salvador, após projeto de lei de sua autoria.

A mudança, à primeira vista, parece ser apenas topográfica, mas carrega um efeito político: um bairro reconhecido passa a ter direito a discussões de planejamento urbano, recursos direcionados, identidade formal e espaço em planos de governo.

Além disso, o mandato avançou em ações como o Casamento Coletivo em Campinas de Pirajá, as Eleições Mirins e o MiniCraque da Comunidade, iniciativas que misturam direito, simbologia e participação. 

Esses projetos não aparecem apenas em boletins de gabinete; eles entram na vida das pessoas como registro de união, como primeiro voto, como chute de bola em campos de terra – e, por isso, marcam generacionalmente o que é ser “do bairro”.

O Centro Cultural Isabela Sousa: quando a política entra na quadra
Paralelo à Câmara, o Centro Cultural Isabela Sousa continua atuando em Campinas de Pirajá, Marechal Rondon, Itacaranha e Novo Horizonte, com atendimentos itinerantes em outros pontos da cidade.

O espaço funciona como ponte entre a política institucional e a rede social concreta: lá se ensina, se escuta, se organiza, se forma liderança.

Dentro desse ecossistema, aparecem iniciativas como o Elas Lideram, programa voltado à formação de mulheres para ocupar espaços de decisão, e outras ações de inclusão, educação e protagonismo juvenil.

Essas experiências ajudam a explicar por que muitos dos projetos aprovados não saem do “vácuo” da Casa legislativa, mas são costurados em rodas de conversa, reuniões de associação e visitas de rotina aos territórios.

O que esta política de periferia revela sobre Salvador
Na prática, o que se vê no mandato de Isabela Sousa é um projeto político que tenta responder à pergunta: como garantir direitos sociais em uma cidade onde a periferia é a maioria, mas a política ainda parece ser feita do centro? 
Seus projetos – de um bairro reconhecido, de um prato de café, de um parto humanizado, de um servidor com apoio psicológico – não são isolados.

Eles se integram a um cenário mais amplo de programas como Periferia de Direitos (estado) e Periferia Viva (federal), que tentam estruturar uma nova pactuação entre governo e comunidades periféricas.

A diferença é que, nesse caso, a iniciativa vem de dentro da própria Câmara, com uma vereadora que, antes de falar em lei, aprendeu com a vida de quem vive “no chão”.

FONTE/CRÉDITOS: Por: Jhonatanbiths