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EDITORIAL | JBN BAHIA
Por: Jhonatanbiths
Hoje, 13 de outubro de 2026, a Bahia amanheceu de luto. Salvador perdeu um dos seus grandes símbolos musicais. O Brasil perdeu uma voz que atravessou gerações. E a Axé Music perdeu um dos artistas que ajudaram a transformar o ritmo baiano em um fenômeno nacional.
Netinho morreu aos 60 anos, deixando uma história marcada por talento, alegria, superação e uma luta pela vida que poucos conhecem em toda a sua dimensão.
Hoje, o bumbo bate, mas parece faltar alguma coisa. O trio elétrico continua fazendo parte da nossa identidade, o Carnaval permanece no calendário e as músicas continuam vivas. Entretanto, existe um vazio que nenhuma banda, nenhum palco e nenhuma multidão conseguem preencher.
Morreu o artista. Não morreu a história. Não morreu o legado. Não morreu a emoção que ele deixou em milhões de corações.
UM MENINO DO RECÔNCAVO QUE CONQUISTOU O BRASIL
Nascido em Santo Antônio de Jesus, no Recôncavo Baiano, em 12 de julho de 1966, Ernesto de Souza Andrade Júnior, conhecido nacionalmente como Netinho, construiu uma trajetória que ultrapassou os limites da música.
A vida lhe apresentou a dor ainda muito cedo. Aos nove anos, perdeu o pai em um acidente de carro. Posteriormente, mudou-se com a família para Salvador, cidade onde sua ligação com a música ganhou novos caminhos.
Aos 14 anos, ganhou o primeiro violão e começou a aprender a tocar por conta própria. Aquele instrumento, que parecia apenas mais um presente, acabaria se tornando parte de uma história extraordinária.
Netinho encontrou na música um caminho para expressar sentimentos, conquistar espaços e levar alegria às pessoas.
Sua passagem pela Banda Beijo e, posteriormente, sua carreira solo o colocaram entre os grandes nomes da Axé Music. Canções como Milla, Beijo na Boca, Pra Te Ter Aqui e Preciso de Você passaram a integrar a memória afetiva de diferentes gerações.
Netinho não era apenas um cantor de Carnaval. Era um artista capaz de transformar música em encontro, festa em identidade e alegria em uma experiência coletiva.
Em 1990, protagonizou um marco ao liderar um trio elétrico brasileiro na Itália, durante a Copa do Mundo, levando a energia da música baiana para além das fronteiras nacionais.
A Bahia ganhava o mundo. E Netinho era uma das vozes dessa conquista.
2013: QUANDO A VIDA COLOCOU O ARTISTA DIANTE DE UMA DAS MAIORES PROVAÇÕES
Antes do câncer, Netinho já havia enfrentado uma das fases mais difíceis de sua existência.
Em 2013, problemas graves de saúde o levaram a uma longa internação. O cantor sofreu três acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e passou por três cirurgias cerebrais em um intervalo de sete dias.
Foram seis meses de hospitalização, um período em que chegou a perder os movimentos do corpo, a voz e parte da memória recente.
Imagine a dimensão dessa experiência para um homem cuja profissão era cantar, movimentar multidões e viver sob os aplausos dos fãs.
De repente, a rotina dos palcos deu lugar aos corredores de um hospital. A música precisou dividir espaço com procedimentos médicos, limitações físicas, incertezas e reabilitação.
Netinho saiu do hospital em uma cadeira de rodas e precisou reconstruir sua rotina, respeitando os limites impostos por sua condição.
A recuperação não aconteceu de um dia para o outro. Exigiu tempo, acompanhamento profissional, exercícios e persistência.
Aos poucos, ele voltou a caminhar, recuperou capacidades e retomou o contato com a atividade artística. Sua história passou a representar também o desafio de recomeçar quando o próprio corpo parece impor obstáculos quase intransponíveis.
Não se tratava de uma luta de algumas semanas. Era um processo de reconstrução.
E ele voltou.
Voltou a cantar, a trabalhar, a encontrar seu público e a mostrar que, mesmo depois de experiências tão duras, ainda existia espaço para novos capítulos.
2025: O CÂNCER INTERROMPE NOVAMENTE OS PLANOS
Quando parecia ter recuperado parte importante de sua rotina, Netinho recebeu outro golpe.
Em fevereiro de 2025, após sentir dores nas costas e procurar atendimento médico, foi diagnosticado com linfoma não Hodgkin do tipo B, um câncer que afeta o sistema linfático.
O diagnóstico exigiu uma mudança radical de planos. Os compromissos profissionais do Carnaval precisaram ser cancelados, e o tratamento passou a ocupar o centro de sua vida.
O cantor iniciou sessões de quimioterapia e enfrentou meses de tratamento, alternando períodos no hospital com momentos em casa.
Em meio a essa realidade, escolheu manter uma comunicação frequente com seus fãs, compartilhando registros de sua rotina e de seu estado de saúde.
Era uma maneira de preservar a proximidade com o público e combater informações falsas sobre sua condição.
Mesmo durante o tratamento, procurou manter atividades físicas dentro das possibilidades autorizadas por sua equipe médica e continuou trabalhando para recuperar sua resistência.
A notícia de que os exames realizados durante o tratamento haviam apresentado resultados favoráveis alimentou a esperança de que aquele capítulo doloroso pudesse ficar para trás.
Em outubro de 2025, Netinho voltou aos palcos. Em novembro, lançou a música Obrigado Meu Deus, uma obra que refletia sua relação com a fé e a gratidão.
Para seus admiradores, aquela retomada representava muito mais do que o retorno de um cantor aos shows. Era a imagem de um homem que havia enfrentado graves problemas de saúde e tentava recuperar os projetos interrompidos.
Mas a batalha ainda não havia terminado.
2026: A RECIDIVA E A ÚLTIMA BATALHA
Em 2026, o linfoma voltou.
A recidiva exigiu novos exames, internações e a retomada de um tratamento intenso. Netinho voltou a enfrentar sessões de quimioterapia e passou a compartilhar atualizações sobre as dificuldades dessa etapa.
Em setembro, anunciou que se afastaria temporariamente das redes sociais para concentrar suas energias no tratamento.
A decisão revelava a dimensão daquele momento: o artista precisava dedicar suas forças à própria saúde.
Na manhã desta terça-feira, 13 de outubro, veio a notícia que seus fãs e admiradores não queriam receber.
Netinho morreu em Salvador, aos 60 anos. Segundo as informações divulgadas por sua equipe, o linfoma não Hodgkin do tipo B evoluiu para falência renal e disfunção múltipla de órgãos.
A doença interrompeu sua trajetória física, mas não apaga os anos de trabalho, as canções, os encontros e a história construída diante do público.
Não cabe romantizar o sofrimento de quem adoece. Não há espetáculo na dor de um paciente, nem vitória simples em uma luta tão complexa.
Há, acima de tudo, uma pessoa. Um homem com uma história, uma família, sonhos, afetos e uma vida que merecia continuar.
É essa dimensão humana que precisa estar no centro da nossa despedida.
A MORTE DE NETINHO PRECISA NOS FAZER PENSAR SOBRE A VIDA
A morte de Netinho também nos leva a refletir sobre a realidade de milhares de pessoas que enfrentam o câncer e outras doenças graves.
Cada paciente tem uma história diferente. Cada diagnóstico traz dúvidas, medos e desafios próprios. E cada família precisa lidar com uma rotina que pode ser profundamente transformada pela doença.
É por isso que falar de Netinho também significa falar sobre a importância do atendimento digno, do acesso aos exames necessários, da continuidade do tratamento, do acompanhamento especializado e do acolhimento aos pacientes e familiares.
Não podemos prometer que toda doença será evitada, nem afirmar que um diagnóstico precoce garantiria outro desfecho para o cantor. Mas podemos defender que todas as pessoas tenham acesso oportuno à avaliação médica, ao tratamento adequado e à informação confiável.
A saúde não pode ser tratada como privilégio.
A dor de uma família não pode ser ignorada porque o paciente não é famoso. E o acesso à assistência médica não deve depender da condição financeira, da influência ou da visibilidade pública de ninguém.
Hoje choramos um artista conhecido nacionalmente. Mas, todos os dias, existem pessoas anônimas enfrentando batalhas semelhantes longe dos holofotes, sem câmeras, sem homenagens públicas e, muitas vezes, com dificuldades para conseguir atendimento.
Essas pessoas também merecem atenção, respeito e dignidade.
Que a partida de Netinho fortaleça o debate sobre políticas públicas de saúde, assistência oncológica, pesquisa científica, cuidados paliativos quando necessários e apoio às famílias que atravessam o sofrimento de uma doença grave.
A homenagem mais importante não será apenas repetir seu nome. Será transformar a comoção em compromisso com a vida.
A BAHIA PERDE UMA VOZ, MAS NÃO ENTREGA SUA MEMÓRIA AO SILÊNCIO
Quem viveu o Carnaval de Salvador sabe que certas músicas deixam de pertencer apenas aos seus intérpretes. Elas passam a pertencer ao povo.
Estão nas lembranças dos amigos, nas viagens, nos encontros familiares, nas histórias de amor e nos dias em que a alegria parecia não ter hora para acabar.
Netinho construiu esse tipo de vínculo.
Suas canções ultrapassaram os limites dos discos e dos palcos. Entraram na história de uma Bahia que dança, que celebra sua cultura e que reconhece na música uma de suas maiores formas de expressão.
Hoje, quando Milla tocar, haverá quem sorria ao recordar uma festa e quem chore ao lembrar que o intérprete já não está entre nós.
As duas emoções poderão existir juntas.
Porque a saudade não apaga a alegria. Ela apenas nos faz perceber o tamanho do espaço deixado por alguém que marcou nossas vidas.
A Bahia não precisa transformar a morte em silêncio. Precisa preservar a memória, respeitar a dor da família e reconhecer a contribuição de Netinho para a cultura brasileira.
Que seu legado seja lembrado com a dimensão que merece: a de um artista baiano que ajudou a levar a Axé Music para o Brasil e para o mundo.
O ÚLTIMO REFRÃO: NETINHO ETERNAMENTE
Hoje, Salvador chora.
O Recôncavo Baiano se despede de um filho. A música brasileira perde uma de suas vozes conhecidas. E os fãs precisam aprender a conviver com a ausência de alguém que, durante décadas, ajudou a transformar encontros em celebrações.
Mas a história de Netinho não termina na notícia de sua morte.
Ela continua nas músicas que serão ouvidas, nas imagens guardadas, nas lembranças dos carnavais e nas gerações que descobriram a Axé Music por meio de sua voz.
O bumbo vai continuar batendo. Os trios elétricos vão continuar percorrendo os circuitos. A Bahia continuará produzindo música, revelando talentos e celebrando sua identidade cultural.
E, entre essas lembranças, haverá sempre um espaço reservado para Netinho.
Que a sua partida nos ensine a valorizar a vida enquanto ela acontece. Que nos lembre da importância de cuidar de quem amamos. Que nos faça olhar com mais humanidade para quem enfrenta uma doença grave.
E que a memória desse artista jamais seja reduzida apenas à doença que enfrentou ou à forma como morreu.
Netinho foi muito mais do que sua última batalha. Foi música, trabalho, história, talento e uma presença que marcou a cultura baiana.
A Bahia chora, mas também agradece.
Agradece pelas canções, pelos momentos de alegria e por tudo o que sua arte representou.
Hoje não é dia de esquecer. É dia de lembrar.
NETINHO ETERNO!
O artista se despede, mas sua voz permanece na memória de um povo.
JBN BAHIA — Da Boa Vista do Lobato para o mundo, com notícias com credibilidade.
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