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Durante muito tempo, falar em jogo de azar significava pensar em cassinos, loterias ou apostas feitas ocasionalmente. A tecnologia mudou esse cenário. Hoje, uma aposta cabe no bolso, funciona 24 horas por dia e está a poucos segundos de distância em um celular.
Essa facilidade criou um mercado gigantesco, mas também colocou diante do Brasil uma questão que ultrapassa a economia: quanto o crescimento das apostas on-line pode custar à saúde pública?
A resposta não está apenas no dinheiro perdido pelos apostadores. Quando o comportamento de apostar deixa de ser recreativo e passa a provocar perda de controle, endividamento, ansiedade, conflitos familiares e outros problemas, parte dessas consequências chega às portas do Sistema Único de Saúde.
O próprio Ministério da Saúde reconhece o transtorno do jogo como uma questão de saúde pública e estruturou ações específicas de prevenção e atendimento. Em 2026, o SUS passou a disponibilizar capacidade de até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas e também para seus familiares.
O PROBLEMA NÃO TERMINA QUANDO O DINHEIRO ACABA
O impacto das bets pode começar no orçamento, mas não necessariamente termina nele.
Perdas financeiras e endividamento podem coexistir com sofrimento emocional, alterações no sono, ansiedade, irritabilidade, culpa, isolamento, dificuldades profissionais e conflitos familiares. O Ministério da Saúde também destaca a associação dos problemas relacionados às apostas com consequências para a saúde física e mental, vínculos familiares e situação socioeconômica.
É justamente nesse ponto que surge uma espécie de efeito dominó sobre o sistema de saúde.
Uma pessoa que desenvolve uma relação problemática com as apostas pode precisar inicialmente de atendimento na atenção básica. Dependendo da gravidade, pode necessitar posteriormente de acompanhamento multiprofissional e atendimento especializado na Rede de Atenção Psicossocial, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Isso significa mobilizar profissionais, estrutura, consultas, acompanhamento e políticas de prevenção — recursos financiados pela sociedade.
UM FENÔMENO QUE JÁ APARECE NOS SERVIÇOS DE SAÚDE
Dados utilizados pelo Ministério da Saúde ajudam a dimensionar o problema.
Segundo a Nota Técnica nº 4/2025, com base em dados do III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD), 25,9% da população brasileira com mais de 14 anos já havia apostado alguma vez na vida. Entre as pessoas que já apostaram, o documento aponta a existência tanto de jogo de risco ou problemático quanto de pessoas que preencheram critérios relacionados ao transtorno do jogo.
O relatório da agenda “Jogos e Apostas: Impacto e Estratégias para a Saúde Pública”, do Ministério da Saúde, também registrou crescimento de 104% nos atendimentos de pessoas com diagnóstico de transtorno do jogo na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no período analisado pelo documento.
O dado é importante porque mostra que a discussão deixou de estar restrita às finanças pessoais: existe demanda chegando aos serviços públicos de saúde.
INFOGRÁFICO | A ROTA DA APOSTA ATÉ O SUS
📱 1. ACESSO
Celular + disponibilidade permanente + estímulos digitais
↓
💳 2. APOSTAS FREQUENTES
Repetição e aumento dos valores apostados
↓
💸 3. PREJUÍZO FINANCEIRO
Perdas → dívidas → comprometimento do orçamento familiar
↓
🧠 4. REPERCUSSÕES NA SAÚDE
Ansiedade • alterações do humor e sono • culpa • isolamento • sofrimento mental
↓
👨👩👧 5. IMPACTO SOCIAL
Conflitos familiares • problemas profissionais • deterioração das relações
↓
🏥 6. PROCURA POR CUIDADO
UBS → acompanhamento em saúde mental → CAPS/RAPS → teleatendimento
↓
💰 7. PRESSÃO SOBRE RECURSOS PÚBLICOS
Profissionais + consultas + estrutura + prevenção + acompanhamento
NÚMEROS PARA ENTENDER O TAMANHO DO DESAFIO
25,9%
da população brasileira acima de 14 anos já havia apostado alguma vez na vida, segundo dados do LENAD citados pelo Ministério da Saúde.
1,2%
é a estimativa da OMS, citada pelo Ministério da Saúde, para a parcela da população adulta mundial afetada pelo transtorno do jogo.
ATÉ 100 MIL/MÊS
é a capacidade anunciada pelo SUS para teleatendimentos relacionados a problemas com jogos e apostas.
+1 MILHÃO
de pessoas já haviam solicitado a autoexclusão das plataformas autorizadas no Brasil até agosto de 2026. Entre elas, 35% indicaram perda de controle sobre o jogo como motivo.
MAS QUANTO AS BETS CUSTAM AO SUS?
Aqui é necessário cuidado.
Não é correto simplesmente transformar todo dinheiro perdido em apostas em “prejuízo para o SUS”. São grandezas diferentes. Da mesma forma, o número de pessoas que apostam não corresponde ao número de pessoas que desenvolverão transtorno do jogo.
O custo real para a saúde pública precisa considerar fatores como consultas, tratamento especializado, saúde mental, hospitalizações eventualmente relacionadas, medicamentos quando indicados, prevenção, capacitação de profissionais e expansão da rede de atendimento.
Há ainda custos indiretos para a sociedade, como perda de produtividade, afastamentos do trabalho e repercussões familiares. Esses efeitos não representam necessariamente despesas diretas do orçamento do SUS.
Por isso, embora as evidências indiquem uma crescente demanda de saúde relacionada às apostas, ainda não existe um número oficial único capaz de responder quanto as bets custam anualmente ao SUS em todo o Brasil.
Essa distinção é fundamental para que um problema real não seja transformado em um número artificialmente preciso.
PREVENIR TAMBÉM É UMA QUESTÃO ECONÔMICA
A política pública não precisa atuar somente depois que a dependência está instalada.
Limites financeiros, identificação precoce do comportamento problemático, educação sobre os riscos, restrições de acesso para menores, ferramentas de autoexclusão e encaminhamento para tratamento podem reduzir danos antes que eles se tornem mais graves.
O Ministério da Saúde recomenda, entre outras medidas, estabelecer previamente limites de dinheiro e tempo destinados às apostas, evitar jogar em momentos de ansiedade ou estresse, desativar notificações das plataformas e buscar ajuda profissional quando houver dificuldade para controlar o comportamento.
O Brasil também implantou uma plataforma centralizada de autoexclusão que permite bloquear o CPF nas empresas de apostas autorizadas e impedir a abertura de novas contas enquanto o bloqueio estiver vigente.
QUEM PAGA A CONTA?
A pergunta sobre o impacto financeiro das bets no SUS não admite uma resposta simplista.
O apostador assume diretamente suas perdas financeiras. A família pode sofrer seus efeitos econômicos e emocionais. Quando o comportamento evolui para um problema de saúde, porém, parte das consequências passa a demandar uma resposta coletiva.
É justamente aí que as bets deixam de ser apenas uma discussão sobre entretenimento, dinheiro ou liberdade individual.
Elas se tornam também uma questão de saúde pública.
E, diante de um mercado acessível 24 horas por dia e de uma demanda por tratamento que já mobiliza novas estruturas do SUS, acompanhar quanto essa realidade efetivamente custa aos cofres públicos será essencial para avaliar políticas de prevenção, assistência e financiamento nos próximos anos.
Dr.Acelo Lambrini
Saúde • Ciência • Comportamento • Sociedade
Fontes: Ministério da Saúde; Rede de Atenção Psicossocial (RAPS); III Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD); Ministério da Fazenda. Dados consultados em setembro de 2026.
Publicado por:
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