Nos últimos anos, a palavra hiperatividade tem aparecido com cada vez mais frequência em consultórios, escolas e debates públicos. O termo é geralmente associado ao Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), mas também se aplica a crianças que apresentam comportamentos de agitação extrema, impulsividade e dificuldades de concentração.
O fenômeno, que já existia, ganhou nova visibilidade no século XXI devido ao aumento de diagnósticos, às transformações sociais e tecnológicas e ao impacto direto sobre o ambiente escolar e familiar. Hoje, a hiperatividade infantil é considerada uma questão de saúde pública, educacional e social.
O que é a hiperatividade?
A hiperatividade infantil vai além da simples energia elevada ou do comportamento agitado esperado em determinadas fases do desenvolvimento. Trata-se de um conjunto de manifestações que incluem:
Inquietação motora constante (não parar sentado, levantar-se a todo momento, mexer mãos e pés)
-
Impulsividade (agir sem pensar, interromper conversas, dificuldade de esperar a vez)
-
Problemas de atenção (distração frequente, dificuldade em manter o foco, esquecimento rápido de tarefas)
Quando esses comportamentos são persistentes, intensos e afetam a vida escolar, social e familiar da criança, há a possibilidade de um diagnóstico de TDAH.
Estatísticas: um problema global e em crescimento
A hiperatividade é um fenômeno documentado em todo o mundo. Segundo dados recentes:
-
A prevalência de TDAH em crianças varia entre 5% e 8% da população mundial.
-
Estima-se que cerca de 2 milhões de crianças e adolescentes brasileiros convivam com o transtorno.
-
Estudos mostram que até 70% das crianças com TDAH apresentam outras condições associadas, como transtorno opositor desafiador, ansiedade ou dificuldades de aprendizagem.
-
Em países de renda média, como o Brasil, até 80% das crianças que precisariam de atendimento em saúde mental não recebem suporte adequado.
Além disso, dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que o consumo de medicamentos à base de metilfenidato, usados no tratamento do TDAH, mais que dobrou em pouco mais de uma década. Esse crescimento levanta discussões sobre a medicalização da infância.
O olhar da psicanálise
O psicanalista Dr. Acelo Lambrini Argento explica que a hiperatividade deve ser compreendida não apenas como uma condição neurológica, mas também como uma forma de expressão psíquica da criança diante do mundo moderno.
“Muitas vezes, a hiperatividade surge como um grito por atenção, um pedido de lugar dentro da família e da escola. A criança hiperativa não está apenas ‘fora de controle’, mas buscando um espaço simbólico para se afirmar. É fundamental olhar para o sintoma como linguagem”, afirma o especialista.
Segundo Dr. Argento, a psicanálise contribui ao propor uma escuta individualizada, ajudando a compreender os significados inconscientes do comportamento e ampliando as possibilidades de intervenção além da medicalização.
“Quando reduzimos a hiperatividade apenas a uma disfunção química do cérebro, corremos o risco de perder a singularidade daquela criança. Cada caso é único e precisa ser ouvido na sua história e na sua subjetividade”, acrescenta.
Impactos da hiperatividade
Quando não acompanhada, a hiperatividade pode gerar consequências significativas:
-
Na escola: dificuldades de aprendizado, baixo rendimento, rótulo de “aluno problema”, risco de evasão escolar.
-
Na família: desgaste nas relações, estresse dos pais, conflitos constantes.
-
Na autoestima da criança: sentimento de inadequação, ansiedade e até depressão.
-
Na vida social: dificuldades para manter amizades, rejeição por colegas, isolamento.
Tratamentos e estratégias de cuidado
Especialistas defendem um tratamento multidisciplinar, que combina diferentes abordagens:
1. Intervenções comportamentais
-
Treinamento parental para pais.
-
Terapia cognitivo-comportamental (TCC).
-
Adaptações escolares com atividades mais dinâmicas.
2. Abordagens psicanalíticas
Segundo o Dr. Acelo Lambrini Argento, a psicanálise tem papel fundamental no apoio à criança e à família:
“Na clínica, oferecemos um espaço de escuta para que a criança possa simbolizar aquilo que não consegue dizer em palavras. O trabalho com os pais também é central, porque muitas vezes a hiperatividade revela impasses na dinâmica familiar”, explica.
3. Medicação
-
Indicada em casos moderados ou graves, com supervisão médica.
-
Útil para reduzir sintomas, mas não substitui acompanhamento terapêutico.
4. Prevenção e intervenção precoce
-
Identificação dos sinais já na pré-escola.
-
Formação de professores e equipes escolares.
O debate sobre medicalização
O crescimento no consumo de remédios estimulantes preocupa. Para Dr. Argento, é preciso cautela:
“O medicamento pode ser necessário em alguns casos, mas nunca deve ser a única resposta. Se tratarmos a criança apenas com comprimidos, não resolveremos as causas mais profundas da sua angústia. O risco é calar o sintoma sem escutá-lo.”
Conclusão
A hiperatividade infantil é um desafio contemporâneo que exige cuidado, escuta e integração entre saúde, escola e família.
Combinando ciência, psicologia e psicanálise, é possível construir caminhos que acolham a energia das crianças sem apagá-las, transformando o que antes era visto como problema em oportunidade de crescimento e desenvolvimento.
“A criança hiperativa não é um erro a ser corrigido, mas um sujeito em busca de reconhecimento. Quando a olhamos com atenção e respeito, abrimos portas para que ela encontre seu próprio lugar no mundo”, finaliza o Dr. Acelo Lambrini Argento.
Comentários: