Na última segunda-feira, 14 de setembro, O Esporte Clube Bahia lançou a terceira camisa para a temporada 2026. O clube desenvolveu a novidade em parceria com a Federação Indígena das Nações Pataxó e Tupinambá do Extremo Sul da Bahia (FINPAT) e a Puma.

O novo uniforme do Bahia combina azul e dourado em uma estampa inspirada nos colares Pataxó, valorizando as raízes indígenas do Brasil. O azul representa as águas, o mar e o Oceano Atlântico, enquanto o dourado remete ao Tawá, o barro, e às riquezas da terra.

Mestre Alderico- Foto: Thiago Sampaio

Na parte posterior, a frase “O Brasil sempre esteve aqui” reforça o conceito da campanha. O clube também utiliza tecido 100% poliéster reciclado na produção da camisa.

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Para o torcedor que pretende comprar a nova camisa, o preço pode causar surpresa. Os valores variam entre R$ 370 e R$ 600, dependendo do modelo. O custo coloca o uniforme distante da realidade financeira de muitos torcedores, enquanto a proposta da campanha aproxima a paixão pelo futebol da luta dos povos indígenas, nossos ancestrais.

O futebol além das quatro linhas

Foto: Catarina Brandão

O esporte, especialmente o futebol, tem uma força singular na construção de narrativas e na formação do imaginário popular. Clubes como o Bahia alcançam milhões de pessoas e dialogam com torcedores movidos por uma paixão que atravessa gerações.

Quando essa potência se volta para a visibilidade dos povos indígenas, o futebol pode ir além das quatro linhas e transformar a camisa, o estádio e a torcida em espaços de diálogo sobre história, cultura, território e direitos.

Essa força também pode levar temas muitas vezes restritos aos debates institucionais a pessoas que acompanham o futebol por amor, identidade e pertencimento.

Foto: Thiago Sampaio

Nesse encontro entre esporte e sociedade, a paixão pelo clube também pode abrir caminho para conhecer, respeitar e reconhecer os povos indígenas que fazem parte da história e do presente do Brasil.

A campanha também trouxe para o debate a luta pela retomada dos territórios indígenas, processo diretamente relacionado à defesa dos territórios e à demarcação das terras tradicionalmente ocupadas.

De acordo com relatórios do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Federal da Bahia, no estado da Bahia vivem mais de 30 povos indígenas, distribuídos por cerca de 90 territórios e mais de 200 comunidades.

Por isso, a presença Tupinambá em uma campanha de grande alcance também chama atenção para a baixa visibilidade dos povos indígenas na mídia e para a importância de ampliar os espaços onde suas histórias, culturas, territórios e reivindicações possam chegar ao público.

Os Tubinambá da Ilha de Itaparica

Foto: Thiago Sampaio

Indígenas Tupinambá de Itaparica participaram do clipe oficial da campanha, que a equipe gravou nos dias 24 e 25 de agosto no território indígena.

Entre os participantes estão Mestre Alderico, cacica Iuly Inaiê Tupinambá, cineasta Rafael Tupinambá (como produtor local) , Kireymbab Trakajá Tupinambá e o vice-cacique Luciano Mandú.

Foto: Thiago Sampaio

As filmagens percorreram diferentes espaços de Itaparica, entre eles a Reserva Taparica, a Igreja do Baiacu, o Manguezal da Misericórdia e o Centro de Itaparica.

A produção levou para uma campanha de grande alcance a presença, a cultura e as vozes dos povos originários.

Ao mesmo tempo em que a campanha amplia a visibilidade dos povos Tupinambás e leva suas histórias a um público maior, o Esporte Clube Bahia e a Puma também associam suas marcas a uma narrativa de identidade, cultura e pertencimento.

O encontro entre esses interesses pode ampliar a visibilidade dos povos originários e também fortalecer a comunicação das marcas com o público.

Escuta e pertencimento

Thiago Sampaiofotógrafo e diretor da campanha, com a cacica Iuly Inaiê Tupinambá – Foto: Arquivo Pessoal

Para a cacica Iuly Inaiê Tupinambá, a participação na campanha contou com respeito e escuta da comunidade.

O convite para participar da campanha chegou com muito respeito e atenção com a nossa comunidade. Durante todo o processo foi feita uma escuta atenta ao que tínhamos para falar e defender. A todo instante, o manifesto buscou traduzir quem somos e quais nossas demandas e lutas atuais, dando visibilidade à nossa luta e explicando de onde vem a força da nossa luta, aquilo que nos motiva no dia a dia a seguir adiante buscando a retomada da terra, dos modos de vida, dos saberes e costumes.

Cacica Iuly Inaiê Tupinambá – na Arena Fonte Nova – Foto: Catarina Brandão

A participação dos Tupinambás de Itaparica leva o território indígena a uma campanha de alcance nacional e amplia o debate sobre presença, direitos e reconhecimento dos povos originários. “A retomada da forma de viver junto com os outros seres, fazendo parte do todo e não sendo donos de nada, apenas parte e pertencimento.”

A representação indígena

Indígena Kireymbab Trakajá Tupinambá nos sets de gravação, em Itaparica – Foto: Thiago Sampaio

A presença dos povos indígenas em campanhas publicitárias também exige cuidado. Para o indígena Rafael Tupinambá, é importante evitar representações que associem o indígena apenas ao passado e à imagem de quem vive exclusivamente na floresta. “Isso reforça estereótipos de que ainda vivemos isolados na mata”.

A crítica não diminui a importância da participação dos Tupinambá na campanha. Pelo contrário, amplia a discussão sobre como esses povos aparecem na publicidade e sobre a necessidade de apresentar diferentes realidades indígenas.

Eles estão aqui, estão na floresta e nas cidades e, ainda que em menor número, estão nas universidades, na política, na comunicação e no esporte. São povos ancestrais e também contemporâneos, com diferentes modos de vida, territórios, culturas e reivindicações.

Visibilidade com protagonismo indígena

Foto: Rafael Rodrigues ( Bahia )

Para Ãtxuhã Pataxó, Diretor de Comunicação da Finpat, a parceria com o Esporte Clube Bahia amplia o alcance das pautas indígenas e permite que a narrativa seja construída com a participação direta dos povos.

Uma parceria com um clube do porte do Bahia tem um alcance que fortalece nossa luta. O clube fala para milhões de torcedores, na Bahia e fora dela, todos os dias. Quando essa visibilidade é usada para contar, com protagonismo dos próprios povos, a história e a luta territorial, isso muda a forma como o público enxerga quem somos: não como passado, mas como povos vivos, organizados e presentes na Bahia e no Brasil de hoje.

Segundo Ãtxuhã, a participação da FINPAT ocorreu em diferentes etapas da produção. A entidade esteve envolvida na imersão cultural, na validação do roteiro do vídeo, na mediação com as lideranças nos territórios e na validação das ativações realizadas durante o lançamento.

Mestre Alderico, indígena Tupinambá, na Arena Fonte Nova – Foto: Catarina Brandão

O que torna essa parceria concreta é o processo por trás da camisa: a FINPAT participou da imersão cultural, da validação do roteiro do vídeo, da mediação com as lideranças em território e da validação das ativações no lançamento. Isso significa que a narrativa não foi feita sobre nós em tom de homenagem vazia, foi construída com a gente, definindo o que podia e devia ser mostrado, assumindo papel de protagonismo.”

Nesse contexto, ocupar espaços de visibilidade também representa uma conquista para os povos indígenas.

“Há muito lutamos para ser vistos e lembrados, e nossos territórios terem este espaço de fala é de valor sem igual,” conclui.