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Quando ouvimos a palavra “política”, é comum pensarmos imediatamente em eleições, partidos, candidatos e disputas ideológicas. Mas existe uma dimensão da política muito mais próxima da nossa rotina: aquela que determina como os serviços públicos serão organizados, quais áreas receberão recursos e quais estratégias serão adotadas para proteger a saúde da população.
No Brasil, essa relação está estabelecida na própria Constituição Federal. O artigo 196 determina que a saúde é direito de todos e dever do Estado e associa expressamente esse direito à adoção de políticas sociais e econômicas capazes de reduzir o risco de doenças e garantir acesso universal e igualitário aos serviços de promoção, proteção e recuperação da saúde.
Isso significa que saúde pública não começa apenas quando alguém entra em um hospital.
Ela começa muito antes.
Começa no saneamento básico, na vacinação, na vigilância epidemiológica, na alimentação adequada, nas condições de trabalho, na prevenção de doenças, na educação em saúde e na existência de unidades de atenção primária capazes de acompanhar a população.
A SAÚDE TAMBÉM É UMA DECISÃO POLÍTICA
Construir uma unidade de saúde é uma decisão pública. Financiar equipes de atenção primária também. Comprar medicamentos, ampliar leitos, contratar profissionais, organizar campanhas de vacinação, investir em equipamentos e definir prioridades para determinada região igualmente dependem de planejamento, orçamento e gestão.
A administração do Sistema Único de Saúde é compartilhada entre União, estados e municípios. Essas três esferas participam do planejamento, organização, acompanhamento e avaliação dos serviços oferecidos à população.
Por isso, atribuir todos os problemas ou todos os méritos da saúde brasileira a apenas uma autoridade simplifica um sistema que, na prática, possui responsabilidades distribuídas.
O financiamento também é compartilhado. Na Atenção Primária à Saúde, por exemplo, o Ministério da Saúde estabelece financiamento tripartite, envolvendo diferentes níveis de governo e critérios relacionados às características demográficas, epidemiológicas e sociais dos municípios.
O CAMINHO DA POLÍTICA ATÉ O PACIENTE
Decisão pública → orçamento → gestão → estrutura → profissionais → atendimento → saúde da população
Quando alguma dessas etapas apresenta problemas, o efeito pode aparecer na ponta: demora para conseguir consulta, dificuldade para realizar exames, falta de determinados medicamentos, unidades sobrecarregadas ou profissionais trabalhando além da capacidade adequada.
Da mesma maneira, políticas bem planejadas podem ampliar prevenção, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento.
DINHEIRO IMPORTA, MAS GESTÃO TAMBÉM
Discutir saúde pública exige falar de financiamento. Hospitais precisam de recursos, equipamentos precisam de manutenção, medicamentos precisam ser adquiridos e profissionais precisam ser remunerados.
Em setembro de 2026, o próprio Ministério da Saúde voltou a colocar em debate a sustentabilidade do financiamento do SUS, relacionando o tema à organização das redes de atenção, à eficiência no uso dos recursos e à redução das desigualdades de acesso.
Mas aumentar recursos, isoladamente, não resolve todos os problemas. É necessário planejamento, fiscalização, avaliação de resultados e definição de prioridades com base nas necessidades reais da população.
A Programação Anual de Saúde de 2026, por exemplo, existe justamente para transformar objetivos da política nacional de saúde em metas e valores financeiros para aquele exercício.
Em outras palavras: orçamento e saúde caminham juntos.
QUANDO A IDEOLOGIA SUBSTITUI A EVIDÊNCIA
Existe ainda outro ponto delicado nessa relação.
Discussões sobre vacinas, medicamentos, alimentação, saúde sexual, saúde mental, drogas, epidemias e políticas de prevenção podem ganhar dimensão política. O problema surge quando a identidade partidária passa a valer mais do que a evidência científica.
Ciência deve ser questionada — esse é um dos fundamentos do próprio método científico. Mas questionar cientificamente significa comparar dados, revisar estudos, testar hipóteses e modificar conclusões quando surgem evidências melhores.
A política pública de saúde precisa fazer algo semelhante: medir resultados.
Uma política não deveria ser considerada adequada simplesmente porque foi criada pelo grupo político com o qual alguém se identifica, nem automaticamente considerada inadequada porque surgiu de um adversário.
O cidadão ganha quando pergunta: funcionou? Quantas pessoas foram atendidas? Houve redução da mortalidade? O acesso melhorou? Quanto custou? Existem dados que comprovem os resultados?
Essa postura transforma o debate político em fiscalização democrática.
SAÚDE NÃO DEVERIA EXISTIR APENAS EM ANO ELEITORAL
Hospitais, postos de saúde e filas para exames frequentemente aparecem no discurso político durante períodos eleitorais. Entretanto, doenças não obedecem ao calendário das eleições.
Planejamento em saúde exige continuidade.
O atual Plano Nacional de Saúde possui horizonte de 2024 a 2027 e funciona como instrumento para orientar políticas e compromissos de médio prazo do SUS.
Essa continuidade é fundamental porque muitos resultados sanitários levam anos para aparecer. Prevenção cardiovascular, redução da mortalidade materna, controle de doenças infecciosas, vacinação, combate ao câncer e fortalecimento da atenção básica não são projetos que deveriam começar e terminar conforme muda uma campanha eleitoral.
São políticas que precisam sobreviver às disputas partidárias quando demonstram benefício à população.
O VOTO TAMBÉM PASSA PELA SAÚDE
Para o cidadão, compreender essa relação não significa transformar saúde em torcida política. Significa justamente fazer o contrário.
Em vez de perguntar somente a qual partido determinado político pertence, podemos perguntar quais propostas apresenta para atenção básica, hospitais, medicamentos, saúde mental, prevenção, vacinação, profissionais de saúde e redução das filas.
Também podemos acompanhar orçamento, metas e resultados depois das eleições.
Democracia não termina na urna.
Ela continua quando a sociedade fiscaliza como o dinheiro público é utilizado e cobra transparência dos governos — independentemente de quem esteja no poder.
PARA REFLETIR
Saúde pública não possui partido. Possui pacientes.
Quando uma pessoa espera meses por um exame, não importa qual legenda administra aquele serviço: existe uma necessidade humana esperando resposta.
Quando uma criança é vacinada, uma doença é diagnosticada precocemente ou um paciente consegue tratamento adequado, estamos diante do resultado concreto de uma cadeia que envolve ciência, profissionais, recursos, administração e decisões políticas.
Por isso, talvez uma sociedade madura não seja aquela que consegue retirar a política da saúde — algo praticamente impossível —, mas aquela que consegue impedir que a disputa política seja colocada acima da saúde.
No final, governos passam, eleições terminam e ideologias continuam sendo debatidas.
Mas o paciente permanece.
E é nele que qualquer política pública de saúde deveria começar e terminar.
Dr. Acelo Lambrini
Coluna — Saúde, comportamento e sociedade
Publicado por:
Portal Dr.Acelo Lambrini
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